Como se dá o primeiro passo da Permacultura?

Como se dá o primeiro passo da Permacultura? Este momento é crucial. Você apresentou seu TCC e recebeu o seu certificado de conclusão do PDC no Ecocentro. Agora volta pra casa cheio de inspiração, informação, contatos novos e vontade de mudar o mundo começando pela sua realidade. Quais serão seus primeiros passos nesta nova aventura chamada “meu futuro”?

Primeiro limpe as lentes. Visão é essencial

Qual a sua visão de mundo? Qual seria o seu mundo ideal? Onde você quer estar vivendo? De que forma vai satisfazer suas necessidades? O que você precisa para ser feliz? Onde vai usar seu poder criativo? Procure passar um tempo desenvolvendo sua visão pessoal e expanda-a para uma visão global. Se ainda não lhe é possível definir isto é porque precisa passar mais tempo observando o mundo a sua volta, convivendo com a natureza, lendo autores que lhe inspirem a evoluir como pessoa e se aproximando de outras pessoas que você respeita e admira. De onde vem o seu sustento hoje? E de onde gostaria que viesse? Qual a sua missão nesta vida?

O sentimento de missão pessoal é o significado que cada um dá a sua própria existência.

Mesmo que você nunca tenha parado para pensar nisto, agora que já é maduro o suficiente para estar lendo isto é um bom momento para começar a responder a estas perguntas.

Primeiros dias

Planeje para um futuro viável

Vivemos em um mundo moderno de individualismo extremo. No entanto a missão de cada indivíduo é o reflexo da sua visão de mundo e estará inevitavelmente refletida nos resultados de todo o trabalho, todas as relações sociais e toda a criatividade deste, dentro dos grupos sociais que participa.

Na visão moderna de empreendimento existe o conceito do “produto viável mínimo” (PVM), definido como um produto, tecnologia ou serviço que possa ser levado ao mercado, mesmo sem que esteja completamente desenvolvido. PVMs são especialmente relevantes em ambientes competitivos, onde é importante entrar primeiro para ser reconhecido (e recompensado) mais tarde.

 

A natureza é mais cooperativa do que competitiva, e na criação de sistemas vivos podemos associar a noção de PVM com o princípio da Escala Mínima, que estabelece que é sempre mais aconselhável começar um projeto de maneira lenta e em mínima forma. Seja o projeto uma tecnologia, uma casa, um empreendimento ou uma comunidade, o importante é iniciar na escala menor possível até desenvolver conhecimento e confiança para expandir. Assim, um empreendimento começa com um PVM, uma comunidade começa talvez com um núcleo habitacional, e uma casa começa com o espaço e as dependências mínimas necessárias para seus ocupantes. Uma floresta começa com uma árvore e uma horta com um canteiro.

Execute no presente. Um PVM para cada projeto.

Um princípio fundamental da gestão e execução de projetos é a priorização de atividades e objetivos de forma alcançável. Em outras palavras, executar bem uma primeira etapa, ou núcleo, até que se complete para depois expandir para objetivos mais ambiciosos a partir das lições aprendidas. Cada passo é a consequência do e anterior. O primeiro passo é o mais importante pois é o investimento de energia e coragem em direção ao desconhecido. É a partida do barco.

Após a realização do design é hora de iniciar a execução.

Tudo é recurso e energia. Sempre existem recursos disponíveis no local e na região onde se atua. Em Permacultura a prioridade deve estar na localização da origem dos recursos e no custeio dos componentes do sistema. Na maioria das situações práticas de assentamento humano no terreno é possível identificar vários recursos e componentes existentes no local, ou na vizinhança, desde o primeiro momento do assentamento.

Imagine, por exemplo, que você está mudando para um sítio onde antes já vivia uma família. Muitas coisas já existem no lugar. A casa, um galpão, cercas, hortas, galinheiros, currais. Tudo isto pode estar lá, em uma posição que você considera inapropriada para seus objetivos de design. Mas isto já deveria ser conhecido antes da ocupação do espaço. Agora que o terreno está ocupado talvez seja tarde para avaliar o custo de mudar tudo de lugar ou demolir antes de começar a construir. Desenhe para adaptação aos elementos existentes e execute dentro das suas possibilidades.

Dinheiro demais pode ser perigoso

A experiência de iniciar muitos projetos me mostrou um paradoxo interessante sobre a disponibilidade de recursos. O sonho de qualquer designer ou artista é poder criar sem limitações. Imaginar tudo que é possível e realizar todas as etapas, sem restrições. Acredito, no entanto, que a criatividade nas soluções em sistemas vivos é proporcional aos limites. O excesso de recursos, dinheiro, tempo ou habilidade é proporcional ao custo dos erros cometidos. A probabilidade de cometer erros mais caros é muito maior quando o dinheiro está disponível.

Por analogia podemos concluir que uma certa carência de recursos leva a maior criatividade no aproveitamento de recursos. Os limites levam o permacultor a considerar tudo como recurso, sem desperdício ou megalomania. Muitos projetos magníficos desapareceram antes mesmo de chegarem ao terreno porque começaram com dinheiro demais.

A necessidade é a mãe da invenção

O ideal é considerar todos os recursos como energias intercambiáveis. Uma ordem inteligente com trocas energéticas localizadas resulta em mais riqueza no sistema.

A riqueza está na eliminação dos desperdícios

No período de criação do Ecocentro, durante os primeiros 4 anos, raramente usávamos dinheiro. Começamos invertendo um padrão linear tradicional: no lugar de exportar alimento para a cidade buscávamos matéria orgânica. O volume de biomassa que entrava no Ecocentro era maior do que a saída. As podas das árvores urbanas, os restos vegetais do sacolão, foram as primeiras aquisições feitas por nós em troca do nosso tempo de trabalho e daquilo que conseguíamos produzir. O sanitário seco foi a primeira obra nova a ser completada, pois não podíamos permitir a erosão de quaisquer nutrientes. Até mesmo algumas viagens a capital foram energeticamente planejadas de forma que voltássemos carregados com os materiais de construção desperdiçados na cidade, o que resultou no embrião de muitas Bioconstruções. Passávamos o dia catando materiais recicláveis enquanto cumpríamos nossas tarefas urbanas.

Toda jornada começa com o primeiro passo

É perfeitamente possível iniciar uma jornada sem conhecer todos os passos no caminho, mas aquele que começa sem uma mínima idéia do destino tem maiores probabilidades de estar perdido. E aquele que anda sem a certeza do próximo passo pode estar andando em círculos.

Defina objetivos a longo prazo (no design) e estabeleça as etapas imediatas necessárias. Não deixe de medir e documentar o seu progresso de forma realista. Onde você quer estar daqui a duas semanas? E em três meses? Um ano? Quais as tarefas a serem executadas hoje, amanhã e nesta semana para avançar na direção desejada? E não esqueça de re-visar e corrigir o curso frequentemente.

Quais são as fases de um projeto de Permacultura?

As etapas evolutivas de um sistema planejado incluem o design, o levantamento de recursos, a localização dos componentes, a decisão das prioridades e a execução dos sistemas críticos. Ao final de dois ou três meses em uma ocupação é possível ter progredido na direção dos seus objetivos de longo prazo, com resultados,que podem incluir:

-Um design detalhado no papel

-Prioridades determinadas pela realidade econômica e reavaliadas sempre que esta realidade muda

-A identificação e localização dos recursos e componentes de baixo custo com trocas locais

-O desenvolvimento completo de um núcleo seguro (um PVM para habitação, água, alimento e reciclagem)

O exercício de decompor um sistema critico em tarefas menores é a melhor oportunidade para visualizar o que deve ser feito e pode significar muita energia e dinheiro economizados. A evolução de um projeto depende do plano de realização de prioridades facilmente alcançáveis.

As atividades de desenvolvimento de um núcleo podem ser distribuídas em três áreas distintas:

1.Abrigo (Habitação) – é todo o progresso feito no sentido de construir, reformar, melhorar ou manter a casa ou o abrigo das pessoas responsáveis pelo sistema sendo executado. É a zona zero.

Você está mudando para uma terra nua ou já existe lá alguma casa que servirá como residência, mesmo que temporária? Pretende construir uma casa nova ou reformar algo que já está no terreno?

Considere um projeto de uma casa pequena que possa crescer. Assim você pode ter uma habitação enquanto se livra das contas relativas a moradia ao mesmo tempo em que trabalha para construir mais espaços, prevendo o crescimento da família ou suas necessidades mais amplas.

2.Segurança ambiental (alimento, água, energia) É o estabelecimento das suas fontes de água potável de forma confiável e ao menos um micro sistema para produção de alimento.

Estabeleça prioridades imediatas para água, comida e energia, e não esqueça de determinar as estratégias de reciclagem de resíduos. Estas podem incluir a eliminação da erosão e a recuperação de solos, e no princípio não precisam se estender mais que uma horta de 10m2 e duas ou três árvores frutíferas. A experiência vai lhe mostrar o momento de expandir.

3.Renda (meio de vida econômica) é todo o progresso feito na direção da estabilidade financeira. Em muitos casos a prioridade está na redução da necessidade de renda, diminuindo custos e eliminando desperdícios.

A realização das prioridades dependente da realidade econômica.

Explore as possibilidades locais de trocas cooperativas.

No princípio, a chave do sucesso está em descobrir oportunidades únicas a serem exploradas em cada design. A escolha de uma cidade turística dentro de uma população de cinco milhões de pessoas foi uma decisão fundamental para o sucesso do Ecocentro. O solo difícil e a situação ameaçada do Cerrado Brasileiro foram as oportunidades escolhidas para o desenvolvimento da experiência de regeneração aplicada.

A noite do Cerrado é mágica

Partindo da experiência do estabelecimento do Ecocentro posso afirmar que um bom design com uma execução criteriosa em tarefas alcançáveis resultará certamente em bons resultados, e não seria otimista demais estimar que ao final de dois ou três anos de trabalho pode-se objetivar:

-A redução significativa da necessidade de renda, como resultado de economias na conservação e processamento de alimento e energia.

– A eliminação da erosão e o princípio de um processo de restauração biológica no campo ou na cidade

– Um produto ou serviço sustentável único e essencial para a região, a partir do excedente do sistema.

– Um meio de vida ético e satisfatório (trabalho com significado) para os ocupantes do sistema.

– Uma paisagem harmoniosa e produtiva, com abundância de recursos biológicos e sem a dependência de veneno ou poluição

– Um papel econômico regional significativo e cooperativo, rico em informação

A expansão a partir de um núcleo físico completo oferece a segurança emocional para a continuidade e resulta na experiência e na economia necessárias para a motivação nas etapas sucessivas do projeto.

No Ecocentro, a casinha existente em 1999 foi o núcleo para a Casa mãe. A Casa Mãe foi embrião para o Ecocentro até que deu lugar a outros núcleos. E o Ecocentro ainda é o embrião da Ecovila Guabaré, que hoje abriga três outros núcleos empreendedores.

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