R$ 3 milhões em 18 dias. Milagre econômico ou valor comum?

Fruto da corrupção, ou só um daqueles anúncios mentirosos do Facebook, onde prometem ensinar a enriquecer sem trabalhar, aproveitando a estupidez alheia?

Nem um nem outro. Esta história é simples e real, e envolve trabalho e inteligência. A realização exige nada além da natureza das pessoas. Os números não mentem e esta história é de números e fatos reais.Design Permacultura Ecocentro Ipec

TCC de 2006 com a visão da produção comunitária no terreno do nosso querido Flávio, Permacultor local

O princípio da cooperação é o segredo da prosperidade

No ano passado a comunidade do Vale do Mar e Guerra, onde nos últimos 20 anos vive também o Ecocentro Ipec, organizou-se para produzir uma lavoura comunitária. Esta não foi a primeira vez na nossa vizinhança. Desde há muito tempo que se faz mutirões comunitários,  mas desta vez os princípios da Permacultura foram aplicados na economia, no ambiente e na cultura local, e alguma coisa mudou.

A iniciativa partiu do nosso amigo Liberalino de Oliveira Neto, ou o “Libera” que começou a frequentar o Ecocentro Ipec com 14 anos de idade e hoje, com 34 tem 20 anos de Permacultura, é empreendedor rural e Secretário de Agricultura de Pirenópolis. E como ele aprendeu muito nestes anos, soube usar a autoridade do cargo para fazer um mundo melhor.

Desenvolver a confiança é o passo mais importante

Liberalino conta que em 2017 queria fazer hortas comunitárias, mas teve dificuldades para convencer as pessoas de que mutirões dariam certo, e sem a participação voluntária e alguém que emprestasse um terreno para um piloto o projeto seria inviável: “As pessoas já estão desconfiadas demais. Quando alguém da prefeitura chega na comunidade para conversar fora de campanha eleitoral já acham que é golpe. Se não veio pedir voto veio porquê?”. Infelizmente esta é a percepção geral que as pessoas têm dos políticos e funcionários públicos, e não é sem razão.  Mas o Liberalino não é homem de desistir de uma boa idéia.

Pela primeira vez na história da cidade a prefeitura estava oferecendo apoio concreto na forma de sementes, cal e máquinas para preparar a terra. Em troca, ficaria com 5% da produção para utilização na merenda escolar. Idéia simples e poderosa.

O problema é a solução

LiberalinoLiberalino é Permacultor desde 2000, e fez o que todo o bom empreendedor deve fazer. Não se deixou desanimar com as portas que se fecham e foi pedir ajuda aos amigos e a família.  Foi nesta que
a Tia Cleusi, outra querida Permacultora do Ecocentro, cozinheira em todos os nossos eventos, logo entendeu a causa e a lógica da economia proposta pelo Liberalino, e concordou em emprestar 5 hectares da sua propriedade para uma lavoura comunitária. Tia Cleusi foi a primeira a comprar a idéia. E era só isto que faltava para a coisa engrenar.

Povo da roça conhece bem a matemática da terra, mas é preciso ver para crer. “Promessa não enche barriga”, dizia a tia Cleusi.

É preciso ver para crer

A primeira lavoura aconteceu no terreno da tia Cleusi, com a participação de 46 famílias do vale. Em cinco dias de mutirão, durante a estação das chuvas, entre Dezembro 2017 e Março de 2018, foram produzidos 25 mil kilos de arroz orgânico de ótima qualidade. Estava aí a prova dos nove  ( alguém lembra disto?)

Dali pra frente tudo mudou muito rápido. A notícia do sucesso da primeira lavoura se espalhou e as outras comunidades do entorno começaram a mostrar interesse. Rapidamente já haviam terrenos cedidos em 4 diferentes localidades e o número de famílias interessadas já chegava a 200.

Safra 2017/18 Investimento privado Investimento público Mercado-$19.95/kg
1 Comunidade – 46 famílias
Área cultivada (hectares) 5 ha N/D
Dias de trabalho (mutirão) 5 dias N/D
Horas de trator 8h $960.00
Sementes 500 kg $800.00
Calcáreo agrícola 15 t $825.00
Produção 25000 kg
Total investimento $2,585.00
Total Receita 25000 kg arroz $498,750.00
Receita Pública 5% – 1250 kg $24,937.00
Receita / família 516 kg $10,294.00    

Como de costume na zona rural, é preciso ver para crer, mas quando a matemática financeira faz sentido a adoção de uma idéia sempre tem mais uma chance, mesmo que já tenha falhado anteriormente. As pessoas reconhecem que a natureza trabalha com elas.

Como se faz 3 milhões em dezoito dias?

Agora já era necessário uma administração do processo. As comunidades estão distantes umas das outras até 40 km dentro do mesmo município, e era necessário cadastrar as pessoas, organizar transporte para os mutirões, programar o uso do trator e manter todo mundo motivado ao mesmo tempo em que se acompanhava e documentava todo o trabalho.

A participação tem apenas uma regra simples: a família que participa de todos os mutirões com ao menos uma pessoa recebe 100% da sua cota no final da colheita. Ausências nos mutirões resultam em subtração proporcional da participação no produto final. Na prática, o resultado é o oposto: em vez de enviarem apenas um representante para cumprir a regra, as famílias inteiras participam, resultando em menos trabalho para cada um e o dia termina quase sempre em festa.

Todos aqui sabem fazer as contas, e não é preciso calculadora.

Permacultura é economia, mas que matemática é esta?

Fui ao Google e perguntei o preço do arroz orgânico. Foi difícil de acreditar.  Um kilo de arroz orgânico custa quase vinte reais. A maior parte deste valor está na intermediação, transporte, embalagem e marketing das distribuidoras e do varejo. O custo real do alimento está muito longe do seu preço. É o que se pode esperar da “economia de mercado”. A lei da oferta e da demanda pode ser perversa quando você está só.

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Anúncio no mercado livre online – Google

Se você prefere arroz orgânico porque não quer alimentar seus filhos com resíduo de veneno não está sozinho. Tem muita gente pensando assim.  Mas o preço do arroz orgânico está R$19,95 no Mercado Livre hoje.

Deste preço, o agricultor é quem recebe a menor parte, menos de 5%. Os outros 95% ficam com o transporte, a embalagem, a distribuição, o varejo e o marketing. Afinal, mesmo que seja um alimento consumido todos os dias pela maioria dos brasileiros não seria possível vender arroz a este preço se não houvesse muita publicidade para convencer as pessoas de que o tempo (ou a vida) delas vale menos do que o tempo da propaganda.

Quanto vale o seu tempo?

O princípio da conservação de energia estabelece que energia não pode ser criada nem destruída. Energia pode ser transformada em trabalho, mas em cada transformação existe uma perda. Quando você compra um kilo de arroz orgânico no supermercado este arroz já passou por muitas trocas energéticas, e você também.

Primeiro, seu dinheiro não caiu do céu. Você trabalhou para isto, e as probabilidades são de que seu trabalho não foi remunerado de acordo com a energia despendida, pois seu patrão também precisa da mais valia sobre seu tempo, que é chamada de lucro.

Este arroz também passou por muitas trocas. Foi produzido no campo, como qualquer outro, mas dali até o balcão da loja online passou por muitas mãos, e todas querem ser pagas. Em cada etapa desta chamada “cadeia produtiva” existe a demanda do lucro maior.

A fórmula da prosperidade é simples: muitas mãos, trabalhando juntas, tornam o trabalho leve para cada uma.

O trabalho coletivo é a nossa natureza

O rendimento e a produtividade do trabalho coletivo são muito maiores, pois o trabalho partilhado entre muitos é um poderoso agente na motivação individual. São poucas as pessoas que não dão o melhor de si quando estão participando de um trabalho em grupo.

Trabalho de campo nunca foi uma atividade estável. Nunca se adaptou bem as leis trabalhistas, desenhadas para manter as pessoas nas indústrias. A produção de alimento também é mais eficiente em mutirões. A natureza do trabalho agrícola é de exigir muito esforço em curtos períodos. O agricultor sempre precisa de ajuda nos momentos críticos. Preparar a terra, semear, limpar e colher são atividades que podem acontecer em poucos dias se houverem suficientes braços para isto, mas os agricultores estão sempre ocupados ao mesmo tempo.

Em poucos dias de mutirão se pode fazer o trabalho que levaria semanas para ser executado por um só agricultor. Com o trabalho coletivo é possível dar os tratos culturais necessários na hora certa de cada cultura. A área cultivada pode ser maior e a execução do trabalho é mais rápida.

Existe uma sinergia entre a redução do impacto de maquinário pesado e a reintrodução do trabalho coletivo na agricultura. O resultado é maior coesão social e participação popular.  As pessoas trabalham menos e desenvolvem mais consciência da sua identidade cultural e da sua posição social.

A safra de 2019 envolveu 200 famílias e produziu 150 toneladas de arroz orgânico, com um valor atual de mercado de quase três milhões de reais.

Safra 2018/19 Investimento privado Investimento público Mercado-$19.95/kg
4 Comunidades – 200 famílias
Área cultivada (hectares) 31 ha N/D
Dias de trabalho (mutirão)  18 dias N/D
Horas de trator 47 hrs $5640.00
Sementes 3100 kg $4960.00
Calcáreo agrícola 93 t $5115.00
Produção  150.000 kg
Total investimento $15,715.00
Total Receita 150000 kg arroz     $2,992,500.00
Receita Pública  5% = 7500 kg $149,625.00
Receita / família 712 kg $14,204.00

Os números não mentem.

Os benefícios não ficam só nisso

Estamos falando da questão financeira porque é uma prioridade existencial para muita gente, mas qual é a conta ambiental, social e cultural?

Primeiro o ambiente. Estamos observando a produção de arroz orgânico em um sistema planejado. Um produto apenas, dentro de muitas estratégias produtivas que resultam em muitos outros, sem falar em conservação de energia. O terreno é preparado para eliminar a erosão e aumentar a capacidade de absorção de água e matéria orgânica com o uso de valas de infiltração e cultivos consorciados. Corredores florestados com múltiplas espécies são estabelecidos, criando espaços protegidos e nivelados. A palha é retornada ao solo, assim a água e os nutrientes completam o ciclo natural. Não existe erosão nem poluição. O solo fica mais rico e mais úmido.

O trabalho das pessoas, e o tempo delas, são remunerados com melhor alimento e qualidade de vida, economia de recursos e saúde proporcionalmente superior. Menos trabalho por mais benefício, um princípio básico da Permacultura. A partilha justa, o cuidado com a Terra e com as pessoas passam para a realidade da comunidade enriquecendo o contexto cultural. As pessoas têm tempo para criar.

Dia de mutirão é dia de festa, de reunião, de comunicação com a família e com os vizinhos. A TV fica desligada e o fogo fica aceso o dia todo. A criançada parece que está no paraíso, e a alegria é geral. A natureza ancestral da nossa espécie é de organização coletiva. Povo que almoça junto prospera junto.

festa do divino pouso de folia

Pouso de folia – festa com 5 mil pessoas – parte das celebrações da Festa do Divino

Os limites desta conta

O preço do arroz comum no mercado de commodities está por volta de R$45 para uma saca de 50kg. Dentro do modelo econômico atual, o agricultor recebe menos de um real pelo kilo do arroz comum, produzido com fertilizantes químicos, maquinário pesado e agrotóxicos. O consumidor paga de 2 a 5 reais por um kilo. O mais barato é quase sempre o arroz mais velho, das safras antigas.  É claro que arroz orgânico, novo, comprado na loja online, não é a realidade da população brasileira.

A possibilidade de organização e produção coletiva é real em qualquer lugar, inclusive na cidade. A necessidade de alimentar nossos filhos e mantê-los com saúde é uma realidade existencial.

É bem possível que o nosso pessoal do vale não encontre quem pague R$ 19.95 por um kilo do arroz produzido em mutirão. Mas eu acredito que nem vão procurar, pois a lógica por traz da permacultura é a sustentabilidade local. Se sobrou arroz, vamos diversificar.

Você poderia imaginar que a comunidade de Pirenópolis estaria ficando imensamente rica se aumentasse a produção de arroz para centenas de hectares, mas esta conta só funciona dentro de uma economia local, ou seja, o valor existe para aquilo que não é gasto, que é a forma mais simples de economizar. Alimento de máxima qualidade pelo mínimo custo.

Se a comunidade passasse a produzir mais que o necessário para sustentar-se confortavelmente, com um objetivo especulativo, teria que entrar na economia globalizada de distribuição, embalagem e marketing, mas isto eles já sabem.  A galinha dos ovos de ouro é uma ilusão ser perigosa.

O problema é a solução. As oportunidades estão nos fatores limitantes.

O limite de produção é estabelecido pelas necessidades de cada família. Em uma comunidade organizada, quando a produção de alimento básico supera as necessidades básicas está na hora de discutir sobre o investimento no futuro. O que fazer com o que sobra?

A economia obtida com a cooperação só faz sentido quando a comunidade aplica no bem estar comum. O excedente pode ser muito bom na hora de re-visar o plano local de educação, saúde e bem estar geral.  O que está faltando na comunidade? Vamos investir na produção de sementes? Como garantir a continuidade do bom trabalho? E se a prefeitura mudar? A mudança é certa.  O poder é uma pedra de gelo ao sol. Í

 O que fazer com este excedente valioso?

Como podemos ver nas tabelas acima, a produção deste ano já ultrapassou as necessidades de arroz de cada família. Portanto é hora de prestar a atenção para não deixar o entusiasmo virar complacência. Agora é preciso contemplar as possibilidades de crescimento e decidir o que fazer:

A. Comercializar o excedente no mercado urbano local (segurança econômica)?

B. Diversificar a produção, incluindo corredores agroflorestais com hortaliças, milho, leguminosas, mandioca e árvores frutíferas (segurança alimentar e ambiental)?

C. Redesign das áreas com corredores permanentes, zoneamento e introdução de tecnologias apropriadas (segurança climática)?

D. Realização de um contrato de continuidade com os donos do terreno para garantir melhorias com acesso (segurança jurídica)?

D. Reservar uma parte da produção para comercializar e investir na autonomia do projeto no caso da participação da prefeitura cessar (segurança político/social)?

E. Todas as alternativas acima (Permacultura)?

Estas questões são relativas a excedente de produção. São sempre mais fáceis de responder do que as questões relativas a pobreza.

“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas possa mudar o mundo. É só isto que pode fazê-lo.”

E na cidade?

Você consegue motivar seus vizinhos? Então pode fazer esta mesma conta na escala urbana para produção em hortas comunitárias. Veja nos próximos artigos quanto alimento se pode produzir em poucos metros quadrados de hortas orgânicas ou numa agroflorestas urbanas. Participe da virada.

Autor: André Soares

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7 comentários em “R$ 3 milhões em 18 dias. Milagre econômico ou valor comum?

  1. Regis de Castro Ferreira

    Políticas públicas inteligentes, iniciativa e conhecimento em prol da comunidafe. O Lineralino está de parabéns. Fico aqui pensando a Permacultura aplicada na escala periurbana. Quantos problemas não seriam resolvidos!!!
    Parabéns pelo artigo André!!!

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  2. Antônio zayek

    Parabéns, muito bem escrito !
    Parabéns para o IPEC ( escola) e para o Libera !
    Ver os muitos resultados da permacultura alegra o meu coração, a permacultura está transformando nossa região, a ecovila Santa Branca é uma realidade ambiental com lobos guarás,toda fauna e uma “mata” de cerrado em torno das pessoas, muitas mudanças em Anápolis e todas as notícias de Pirenópolis , são 21anos de trabalho,mas as mudanças são cada vez mais notáveis!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Nanda Favaro

    Lendo seu artigo me peguei pensando em como o que é considerado mais “contracultural” na permacultura é, na verdade, o caminho óbvio para um mundo mais social e ambientalmente justo. É o observar a natureza e imitar seus padrões e fluxos aplicado a uma prática do cotidiano, da vida comum. Essa contradição (lutar pelo óbvio) é a tônica de todos os movimentos. A diferença da permacultura, ao que me parece, é que as experiências são facilmente mensuráveis em termos econômicos. E isso a torna um sistema permeável a uma diversidade incrível de pessoas, valores, referências e recursos – afinal, o dinheiro segue sendo uma linguagem importante e comum no planeta, para o bem ou para o mal.
    Mas o que queria mesmo dizer é obrigada! Baita texto inspirador para quem está dando seus primeiríssimos passos na permacultura, porque mostra sua aplicação real e seus frutos na vida de uma comunidade inteira. Guardei-o para ler a caminho do trabalho porque sabia que tornaria meu dia mais feliz e minha cabeça fervilhando de ideias! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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